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The New York Times de hoje: ‘Três Poetas na Amazônia’, incluindo o caxiense Salgado Maranhão…

Este artigo faz parte da série Opinião A Amazônia Tem Visto Nosso Futuro , sobre como os povos da região vivem as versões mais extremas dos problemas do nosso planeta.

Ilustrações de Paola Saliby

Manaus mais uma vez, por Astrid Cabral

Astrid Cabral é uma poetisa amazônica brasileira. Seus livros incluem “Cage”, “Gazing Through Water” e “Waiting Room”. Este poema foi traduzido por Alexis Levitin do português.

Poema:

Loja após loja que vende vidros pelas ruas.

Procuro em vão óculos bons contra o espaço e o tempo.

Lentes para anular a soberania absoluta das distâncias

e me traga imagens claras do passado.

Meus olhos lutam para desenterrar Manaus,

aquele vasto mercado sem telhado, aquela garagem ao ar livre.

Aqui e ali icebergs de perfil neoclássico:

a cúpula do teatro, a fachada alta de um palácio,

mas lajes verticais bloqueiam rapidamente a visão

e uma explosão crua de cor vem para mascarar

as fachadas de edifícios sombrios vestidos de envelhecidos verdes acinzentados.

Procuro uma loja discreta, a reserva dos perdidos

província, onde se entrava por portas altas e estreitas

pedir mercadorias de pessoas conhecidas.

Tudo sem o menor espalhafato, sem cartazes espalhafatosos,

nada de alto-falantes e seus berros estridentes.

Eu procuro por um rosto silencioso escondido de muito antes deste caos,

Loucuras carnavalescas de apenas três dias fugazes,

o canto aprazível onde reinava um silêncio

quebrado apenas pelo som de sinos e bondes em seus trilhos.

Nenhum rugido selvagem do tráfego sem fim

nem da multidão anônima desfilando sem rosto.

Agora mal consigo dar um passo, as calçadas bloqueadas por carros

e barracas de rua repletas de implementos eletrônicos.

Eu paro abruptamente: assustado com a tenacidade dura

de verde: enfim vejo licania, ficus , manga e mamão.

Todos eles proclamam o milagre, fruto de chuvas férteis.

Durante anos eles cresceram, mas atrofiaram à sombra de

aquelas manadas estáticas de elefantes exóticos.

Procuro em vão canais fluindo sob as pontes

carregando ao longo das margens dos rios, galhos, troncos, folhas.

Não há mais canoas, esteiras rolantes, cabaça alagada,

nem cabanas flutuantes, casas sobre palafitas, brotos de grama do pântano.

Apenas detritos fétidos, poças gangrenadas de lama,

barracos feitos de restos, folhas de zinco, resíduos, miséria .

Das águas submersas, quase extintas, humilhadas,

apenas uma cobertura de vegetação rasteira revela a umidade oculta.

Para ver a cidade mais uma vez, fechei os olhos.

Índio Velho, por Salgado Maranhão

Salgado Maranhão é um poeta afrobrasileiro. Seus livros incluem “Blood of the Sun”, “Tiger Fur”, “Palávora” e “Mapping the Tribe”. Este poema foi traduzido por Alexis Levitin do português.

Poema:

Eles já pegaram nosso couro

e nosso sangue,

eles já sortearam nossa terra

com todos os seus nomes sagrados

(e deixou-o despojado até o osso).

Insaciável, agora eles nos negociam

para carne.

Não à seiva do agronegócio!

Não a um destino de agro-morte!

Não ao Kindle em um mundo sem parentes!

A flora geme,

a fauna geme,

o rio rico em mercúrio geme.

É a floresta que veste o índio.

Deixe-nos o pouco que resta!

As flores não podem brotar das chamas.

Descrição, por Homero Aridjis

Homero Aridjis é um poeta, romancista e ativista ambiental mexicano. Seus livros incluem “A Time of Angels” e “Eyes to See else.” Este poema foi traduzido do espanhol por George McWhirter.

Poema:

A raiva é uma breve loucura, Horace

A Amazônia se transformou na maior fogueira do mundo.

Os Alpes e os Andes foram convertidos em abismos.

Os mares e os olhos que os contemplaram evaporaram.

Na árvore da vida, o pássaro que cantou os quatrocentos

vozes azuis desapareceram nas chamas.

De todas as criaturas, os olhos humanos têm as covas mais profundas.

De repente, era noite na terra.

Um silêncio abrasador tomou conta de tudo.

O mais órfão dos seres era o filho do homem.

Velho como a lua era o rosto do bebê.

Eons se dissolvem em instantes.

Em algum lugar, em algum momento

um Godzilla enlouquecido e um Batman enlouquecido

lançaram ataques nucleares uns contra os outros.

Tudo foi breve.

O Apocalipse será obra do homem, não de Deus.

Por The New York Times.

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