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ACONTECEU NO BRASIL: Como lula driblou o destino

Na infância, ele escapou da mordida de uma jumenta e de ser deixado na estrada na viagem a São Paulo. Na juventude, pegava o paletó emprestado de um amigo para ir aos bailes. E ficou três anos deprimido com a morte da primeira mulher

Alan Rodrigues

Lula estava mergulhado num silêncio distante. Em um restaurante em São Paulo, junto com amigos, ele apenas girava lentamente um copo com água mineral. – Lula, por que você, constantemente, silencia e se isola diante de um copo d’água? – quis saber Denise Paraná, então uma de suas assessoras.

– Ele me faz pensar aonde foi que eu cheguei. De um menino pobre, que para matar a sede tinha que beber água suja do córrego depois de separar os caramujos, estou aqui.

O diálogo ocorreu em 1992 e foi a senha que levou Denise a mergulhar numa investigação de raras fotos, poucos documentos e muitas lembranças emocionantes: a história praticamente desconhecida da infância e da juventude de Luiz Inácio Lula da Silva. “Se você for me ajudar a me entender, eu topo te contar minha vida”, concordou Lula. “Se for para puxar o saco, tô fora. Não quero que publiquem que eu sou santo. Não sou.”

NA INFÂNCIA, ELE ESCAPOU DA MORDIDA DE UMA JUMENTA E DE SER DEIXADO NA ESTRADA NA VIAGEM A SÃO PAULO. NA JUVENTUDE, PEGAVA O PALETÓ EMPRESTADO DE UM AMIGO PARA IR AOS BAILES. E FICOU TRÊS ANOS DEPRIMIDO COM A MORTE DA PRIMEIRA MULHER

Durante dois anos, Denise entrevistou os irmãos do presidente, seu ex-cunhado e maior amigo de juventude, Jacinto Ribeiro dos Santos, o Lambari, e a mulher, Marisa. Foram mais de 100 horas de gravações, que elucidaram como Lula construiu uma trajetória única.

Luiz Inácio não chegaria onde está se aos quatro anos não tivesse escapado da mordida de uma jumenta que, para proteger a cria, o pegou pelas costas e o sacudiu no ar. Foi salvo pelos gritos da irmã Maria que alertaram um vizinho, que esfaqueou o animal. Até os cinco anos, Lula nunca tinha ouvido rádio, visto uma bicicleta ou calçado um par de chinelos. Na única imagem desta fase, os sapatos foram emprestados pelo fotógrafo.

MOMENTOS Lula na formatura do Senai, aos 15 anos (à esq.); com a mãe e os irmãos na praia de Santos; e com dona Marisa e os filhos em frente à casa onde morou em São Bernardo

Ele só se mudou para São Paulo porque, com a mulher grávida de Lula, o pai fugiu para Santos com a prima dela. Cinco anos depois, ao retornar a Caetés, no agreste de Pernambuco, para ver a família, perguntou quem, entre os sete filhos (a mais nova foi gerada nessa visita), queria ir com ele. O segundo mais velho, Jaime, se apresentou. Dois anos depois, Lula escreveu à mãe, Eurídice Ferreira de Melo, a dona Lindu, como se fosse o pai, Aristides Inácio da Silva. Pedia que a família viesse ao encontro deles em Vicente de Carvalho, entre Santos e Guarujá.

CONFLITO Aristides e dona Lindu: Lula lembra do pai cruel e da mãe corajosa

“Mas meu pai estava pouco interessado que ela viesse”, conta o presidente no livro Lula, o filho do Brasil (Ed. Perseu Abramo, 528 págs.), resultado da pesquisa de Denise. “Queria viver a vidinha dele com a outra mulher daqui.” Dessa outra união, Aristides teve mais 12 filhos. Dona Lindu, no entanto, atendeu ao chamado. Vendeu o pequeno sítio, os poucos animais e meteu-se num pau de arara durante 13 dias. Nas paradas, as crianças dormiam nas calçadas, ao relento, ou embaixo do caminhão, quando chovia. Numa delas, Lula e seu irmão mais próximo, Chico, foram ao mato, na falta de um banheiro. “Quando percebemos, o caminhão estava indo embora. Foi um susto. Minha mãe ia gritando e a gente correndo atrás.”

Na capital paulista, Lula entrou pela primeira vez num carro, um táxi Chevrolet, que levou 11 pessoas (dona Lindu e os sete filhos e um casal de tios com o filho) até Santos. “A primeira vez que eu comi arroz foi por um problema de doença. Estava com dor de barriga, minha mãe comprou remédio, quer dizer, comprou arroz”, conta Lula no livro. Ele tinha sete anos quando chegou a São Paulo, sem documento, e ainda foi registrado com outra data de nascimento (27 de outubro, apesar de a mãe dizer que era dia 6).

No ano passado, numa audiência com Lula, o produtor Luiz Carlos Barreto disse que queria filmar sua vida. O presidente entregou-lhe o livro de Denise. “Converse com ela que é quem sabe tudo da minha vida”, disse. No início do mês, ISTOÉ viu uma compilação de dez minutos do filme, que será lançado simultaneamente em todos os países da América do Sul. Custará R$ 16 milhões e é a maior produção do cinema nacional. “Não captamos nem um tostão de dinheiro público”, diz Barreto. A pré-estreia está marcada para o dia 2 de janeiro, em Caetés, com a participação de Lula.

PAIXÕES Lula no time da Vila Carioca

Olhando para o passado, o presidente acha que sua infância foi roubada pela miséria e guarda mágoas do pai, um ensacador do porto de Santos. “Ele era muito ignorante. Levantava cedo, tomava café, comia o pedaço de pão dele. Depois pegava o restante e botava numa lata em cima do armário e ninguém podia comer. Coisa que um pai, um ser humano normal, fica sem comer para dar para o filho”, conta.

Pior que a ignorância eram os maus-tratos. Aristides dividia a semana entre as duas famílias e repartia entre os filhos iguais doses de violência. Ir à escola, por exemplo, era motivo para surra. Ele achava que homem tinha só que trabalhar. Certa vez, depois de espancar um dos filhos, o Frei Chico, até a criança urinar nas calças, Aristides, partiu para cima de Lula.

“Quando ele veio bater em mim, minha mãe não deixou. Aí ele deu uma mangueirada na cabeça dela e isso foi o começo da separação.” Dona Lindu avisou que ele não a veria mais e, mesmo uma década depois, quando Aristides foi a São Paulo a convite de um filho, ela se trancou num quarto para não encontrá-lo.

ISTOÉ ASSISTIU A TRECHO DO FILME COM EPISÓDIOS DESCONHECIDOS DA INFÂNCIA E JUVENTUDE DE LULA

Ao lado da irmã Maria, com calçado emprestado e no dia do casamento com Lourdes, que morreu grávida de nove meses com hepatite

O rompimento do casal foi o grito de liberdade dos Silva. Pelas ruas de Santos, Lula vendia lenha, laranja, tapioca e engraxava sapatos. Dona Lindu catava grãos de café caídos nas calçadas dos armazéns da cidade para completar a renda. Outra lembrança de Lula era que eles não comiam carne nunca. “A carne que a gente comia era a mortadela que meu irmão roubava na padaria em que ele trabalhava.”

A sorte começou a virar com a separação, mas foi grande mesmo no dia em que, empregado como carregador de caixas de madeira num mercado, Genival Inácio da Silva, o Vavá, achou um pacote de dinheiro embrulhado num jornal, embaixo de um carrinho.

Avisou um colega e esperou uma semana. Como ninguém reclamou o dinheiro, que correspondia a 34 salários mínimos, usou-o para quitar o aluguel atrasado em cinco meses e financiar a mudança da família para a Vila Carioca, em São Bernardo do Campo.

Só perto dos 15 anos o presidente começou a ter uma vida menos sacrificada, com um emprego numa tinturaria. Depois foi auxiliar de escritório, operário em fábrica de parafusos e começou a estudar no Senai, onde aprendeu o ofício de torneiro mecânico. Com a conclusão do curso, a vida engrenou. “Eu era o orgulho da família, o cientista”, lembra. No início da década de 1960, virou metalúrgico, mas num primeiro momento pouco se interessava pela vida sindical. “Lula era completamente alienado, de direita. Mas conciliador”, revela Denise.

Nessa época, vivia em companhia de Lambari e pegava um paletó emprestado de outro amigo para ir aos bailes. Em 1971, sofreu o maior tormento de sua vida: a perda da primeira mulher, Lourdes. Grávida de nove meses e com hepatite, ela faleceu num episódio que Lula acredita ter sido um erro médico. Ainda tentaram salvar o filho, sem sucesso. “Foi um baque pior que a morte da nossa mãe”, diz a irmã Tiana.

“Eu fiquei três anos e meio deprimido, perdi o sentido da vida”, diz Lula.

A militância sindical começou a preencher esse vazio. Graças ao sindicato, conheceu Marisa, que também era viúva. Carismático, Lula virou referência entre os operários do ABC e em 1978 derrubou os antigos aliados sindicais. “Montei minha própria diretoria.” A partir daí, sua história passou a ser acompanhada pela imprensa nacional, mas ainda está longe de terminar. “A política é como uma boa cachaça: você toma a primeira dose e não tem como parar mais, só quando termina a garrafa”, diz Lula, em O filho do Brasil.

Tolos preconceitos
Já que a elite nacional padece do mesmo mal com que costuma atacar o presidente Lula, o da pouca leitura, o filme realizado a partir do livro Lula, o filho do Brasil deveria ser útil para que ela reconsiderasse quatro preconceitos.

1 Lula não estudou – Na sua família, Lula foi quem mais teve estudo formal. No Brasil da década de 1960, ele pertencia à metade superior do estrato educacional. No sindicato, fez a especialização que cabia: cursos sobre leis trabalhistas e até aulas de oratória na Faculdade de Direito da USP.

2 A perda do dedo – Praga no Brasil de 40 anos atrás, os acidentes de trabalho vitimaram quatro dos cinco irmãos. O de Lula revela também a assistência precária. “Fiquei esperando horas, até chegar 6 da manhã e o dono (da metalúrgica) me levar no médico”, conta. “No hospital, ele olhou meu dedo (esmagado) e cortou o resto.”

3 Lula não gosta de trabalhar – Como não se aplicava ao garoto que cortava lenha no mangue e vendia amendoim na estação das barcas, esse preconceito surgiu quando ele passou a viajar o Brasil para montar o PT. Isso não era um emprego, mas não deixa de ser trabalho.

4 Lula só pensa nele – Quando metalúrgico, o salário ia para a mãe. Como pouco teve de seu pai, Lula foi um pai generoso. Hoje, o fato de nenhum dos irmãos ter dado saltos de renda mostra a correção da família, não o desamparo.

FONTE:http://istoe.com.br/

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