Foto: Da esquerda para direita: Carvalho Júnior, Edmilson Sanches e Eziquio Barros
“Cultuo a vida”
(Carvalho Junior)
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Enquanto Carvalho Junior lutava pela sobrevivência, eu ficava pensando no que pensavam suas duas maiores obras — as filhas — e a esposa, Joseneyde. Sem querer, mas sem controlar, me lembrava de minha mãe doente, entubada, e de como seríamos nós seus filhos sem ela, a grande mãe, a grande fieira, o grande cambo que nos unia a todos. (Aliás, a palavra “Cambo” é título de um livro que estou escrevendo e Carvalho Junior por “n” vezes me dizia do quanto gostava desse título e brincava: “ – Se você não escrever esse livro, escrevo um com esse nome…”.
Não há como esquecer as conversas ao telefone por horas e horas seguidas, o sem-número de áudios e as mensagens, as dúvidas e perguntas que me fazia o Carvalho Junior sobre algum aspecto da Língua Portuguesa, da Literatura e da História caxiense.
A gente fica pensando no quanto de orações, “energias”, mensagens, poemas, imagens foram feitos, enviados, trocados, todos torcendo pela recuperação do grande jovem poeta. Nas solenidades — controladas, desaglomeradas… — dos dez anos da Academia Sertaneja de Letras, Educação e Artes do Maranhão, a Asleama, de 15 a 19 de março deste 2021, quantas vezes antes e/ou depois de pronunciamentos eu e outros colegas acadêmicos nos manifestamos com uma fala sobre o Carvalho Junior e pedidos e endereçamentos de minutos de silêncio e contrição, energia e oração em prol do Carvalho…
Em janeiro último, Carvalho Junior, Eziquio Barros Neto e eu vencemos a tarde e a noite em uma mesa frente ao Excelsior Hotel, em Caxias (neste momento estou em Fortaleza – CE), e, entre goles de um líquido ouro, partilhamos sonhos áureos para Caxias, para o futuro da cidade, para um possível reconhecimento da grandeza de seus valores de ontem e de agora… (Aliás, era nesse Hotel, mas, também frequentemente, no menor bar do mundo, o Fiapu, do amigo Paulo Sérgio Assunção, praticamente em frente à Igreja Matriz, que Carvalho, Ezíquio e eu nos reuníamos, “lavando o peritônio” e remoçando sonhos que poderiam envelhecer de tão sonhados que são…).
Jovem, 35 anos, não fumante, forte… Nós, que não sabemos nada, nos perguntamos: Como pode ter ido o Carvalho Junior, assim? 30 de março de 2021…
Caxias, o Maranhão e o Brasil não só perdem o Carvalho professor, gestor escolar, ativista cultural, sonhador por uma Caxias melhor — perde também provavelmente seu mais consistente e promissor poeta das últimas décadas. Ele me falava de um novo livro em preparo, além de outros já prontos, inclusive um livro infantil, para o qual me pediu um prefácio, em versos.

Foto: Arquivo pessoal de Carvalho Júnior e suas duas filhas

Foto: Arquivo pessoal de Joseneyde ( Esposa)
Joseneyde e as meninas não deixarão que essas obras se enterrem com seu Autor. Ante tantos dias de luto, dor, tristeza, saudade, publicar os inéditos de Carvalho Junior é uma forma de o escritor ressuscitar em palavras e dar-lhe a parição de mais filhos — de celulose e tinta, que também cuidarão de eternizar o pai-Autor.
Não é fácil desviver… Aliás, nós, os Morituros, de verdade nem intuímos isso de verdade. Parece que o fato de se estar vivo provoca a ilusão de que se seja eterno em carne e osso. Mas — já o disse — não somos eternos; somos apenas enfermos — enfermos de vida.
Carvalho Junior foi à frente, para desvendar o maior dos mistérios poéticos — a Criação (“poesia”, em grego).
Carvalho resistiu o quanto pôde.
E quando tombou, tombou para o Alto.
Descansa, Grande Poeta.
Carvalho Junior:
Conterrâneo – de Caxias;
Colega — de Magistério, Educação, Literatura;
Parceiro — de ideais;
Confrade — de Academias;
Amigo — de sempre.
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Aqui, o prefácio para o livro infantil (inédito) escrito pelo Carvalho Junior:
CHIQUINHO SAPATINHO
(para o livro “A Volta do Sapatinho de Ploc”, de Carvalho Junior)
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Tem pai. Tem mãe. Tem irmãos. Tem, claro, amigos.
Se briga, se zanga, se se irrita, o que faz?
— Uns biquinhos.
Além do topete, da pose e a teimosia,
sim, ele, um menino, levado, o que traz?
— Sapatinhos…
…que cheiram a festa e, nham!, goma de mascar
— bola (ploc!) que estoura gostoso no ar.
Estoura também bolha-tempo, e o guri cresce
— pois Peter Pan é (de) outra história:
— um tiquinho
de gente que voa, voa. Nosso menino, não:
tem pés no chão. Vira pai. É clara sua glória.
— É, Chiquinho…
O Chiquinho — feito gente feita de letras
…e carinho
para quem sabe ler e imaginar — ao menos
— um pouquinho.
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EDMILSON SANCHES
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