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LUTO CAXIAS: MORREU JOÃO AFONSO BARATA

JOÃO AFONSO BARATA LOPES BASTOS 
(09/03/1928 – 19/06/2019)

Com 91 anos , 3 meses e 10 dias, faleceu nesta quarta-feira, 19 de junho de 2019, o ex-vereador e ex-deputado estadual caxiense João Afonso Barata Lopes Bastos. Nascido em Caxias em 9 de março de 1928, filho de José Bastos Lima e Matilde Lopes Bastos, João Afonso Barata, como era mais conhecido, era casado com Dª Rosilda Aguiar Oliveira Bastos e pai de 12 filhos: Sandra Maria, Rinaldo, Reginaldo, Léo Barata (que também foi vereador e secretário municipal de Cultura de Caxias), Victor Emanuel, Delmar Barata, Solange, Idelfonso, Reinaldo, Barata Neto, Ronaldo e Mazinho (falecido).

Sua histórica política teve uma regularidade e consistência pouco comum; foi uma história de sucessivos mandatos, atestado de sua popularidade, embora as muitas polêmicas que Afonso Barata suscitou e que, em Política, são quase obrigatórias, do ofício. Foi eleito vereador em 1966, 1970 e 1974. Como vereador é uma espécie de “deputado municipal”, não pareceu ser difícil a Afonso Barata, com sua popularidade, chegar um degrau acima, o mandato de deputado estadual, que ele alcançou ao final do terceiro mandato de vereador, em 1974, sendo reeleito em 1978. No seu primeiro mandato de deputado estadual (1975-1978), governava o Maranhão o também caxiense João Castelo Ribeiro Gonçalves (falecido), de quem Afonso Barata foi líder na Assembleia Legislativa, em São Luís.

Como deputado estadual, João Afonso Barata foi autor do anteprojeto da Lei nº 55/1980, de 19/08/1980, para a trasladação dos restos mortais do poeta caxiense Joaquim Vespasiano Ramos de Porto Velho (TO) para Caxias (MA), terra natal do escritor. O projeto foi, por sanção do governador do estado, João Castelo, transformado na Lei nº 4.225, de 18/11/1980. Eis alguns trechos do que escreveu Afonso Barata na justificativa de seu projeto:

“O poeta Vespasiano Ramos é o poeta preexcelente do amor, o herdeiro da lírica de Gonçalves Dias, como disse o filólogo e poeta brasileiro João Ribeiro”. // “Dele disse Humberto de Campos que Vespasiano Ramos foi o lirismo feito homem, quando da publicação de seu livro “Cousa Alguma…”” // “Vespasiano Ramos continua reverenciado na memória do povo, principalmente em sua terra natal, onde é venerado, havendo caxiense que se desloca até Porto Velho para depositar flores e acender velas em seu túmulo”.

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Conheci razoavelmente o Afonso Barata e seu filho, Léo Barata, que foi vereador e secretário da Cultura e é meu confrade na Academia Sertaneja de Letras, Educação e Artes do Maranhão (Asleama), sediada em Caxias. Afonso Barata morava ali na Rua São Benedito, ao lado do Banco do Nordeste e quase em frente à residência da professora Tia Filozinha. Eu morava na rua paralela, a Afonso Pena, e aqui e acolá passava em frente à casa do João Afonso Barata e eventualmente conversávamos. Depois, Afonso Barata foi morar lá no morro do Alecrim, em uma espaçosa casa, quase um sítio – a Chácara Rosilândia, na Rua Alto da Cruz, no bairro Nova Caxias. Meu tio João Gama alugou a casa da Rua São Benedito, onde morara o ex-político caxiense.

Quando eu tinha entre 14 e 17 anos, fui locutor da Rádio Mearim de Caxias e apresentava três programas (“A Voz do Estudante”, pois eu era presidente do grêmio do Colégio São José), “Musical Mearim” e o suplemento musical que encerrava a programação da nossa rádio AM, às 19h, antes da “Voz do Brasil”. Em algum momento desses anos, o João Afonso Barata foi um polêmico comentarista político, no horário de meio-dia. Era “pancada” pra todo lado e sobrava especialmente para pessoas da Família Castro, em particular o José Ferreira e o Constantino Ferreira de Castro (sobre isto, leia mais abaixo acerca de episódio em que houve muitas balas mas, graças a Deus, nenhum morto ou ferido). A Rádio Mearim, na época, não era mais ali próxima da Igreja Matriz; ficava perto do Café do Profeta, praticamente em frente à praça do Senadinho ou do Banco do Brasil.

Barata foi uma indescartável figura da vida política caxiense. Era uma boa prosa quando conversava com os amigos e conhecidos. Em sua residência no Alto da Cruz, seis anos atrás, conversamos longamente e ele relatou-me sua versão do episódio do tiroteio na Rádio Mearim. Entre sorrisos e dizendo que tudo havia sido perdoado entre as partes, autorizou-me relatar e publicar o que ele disse.

Com o falecimento de João Afonso Barata Lopes Bastos morre também uma significativa parte das lutas e memória políticas de Caxias. Ele também era meu Confrade no Instituto Histórico e Geográfico de Caxias, onde ocupava a cadeira nº 25, que tem como patrono o médico, professor, ex-deputado federal, empresário Achilles de Almeida Cruz (1905-1987), um dos fundadores da Escola Técnica de Comércio de Caxias, em 1958.

Condolências aos familiares, neste momento de dor, luto e saudade.

Que a alma de João Afonso Barata descanse em paz.

EDMILSON SANCHES
www.edmilson-sanches.webnode.com

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DE BRIGAS POLÍTICAS, MILAGRES E RECOMEÇOS
(publicado em maio de 2013)

Em um período qualquer entre meus 13 e 17 anos fui locutor da Rádio Mearim de Caxias — claro, em Caxias, Maranhão, e, claro, eu era estagiário do Banco do Brasil, diretor da AABB, presidente do Grêmio Santa Joana d’Arc do Colégio São José (das Irmãs Missionárias Capuchinhas), redator de jornaizinhos “house organs” e titular de uma página inteira em “O Pioneiro”, entre outras coisas…

Acho que o prefixo da Mearim era ZYA-83. Eu apresentava três programas: “A Voz do Estudante”, “Musical Mearim” e a seleção de músicas de encerramento da programação, antes da “A Voz do Brasil”, à noite.

A rádio era dirigida pelo técnico Antônio Bezerra de Araújo. Tinha no seu quadro de locutores o J. Rodrigues, ao meio dia, líder de audiência, o Roberto Nunes (que depois se transferiu para São Luís, onde se destacou como locutor esportivo), tinha o Luiz Abdoral, tinha o Mário Amorim, que se mudou para Imperatriz, onde continuou sua carreira na Polícia Civil do Maranhão, como auxiliar de perito. (Amorim escreveu um livro de memórias onde relata sua passagem pela Princesa do Sertão; a obra continua inédita. Ele me mostrou os originais).

Além dos locutores e tradicionais apresentadores de programa, a rádio do “Seu” Bezerra contava com, digamos, comentaristas do quotidiano. Em um determinado momento da Rádio Mearim esse comentarista era João Afonso Lopes Bastos, mais conhecido como João Afonso Barata, nome que o levou a diversas vitórias políticas — várias vezes vereador e, depois, deputado estadual. Deixou herdeiro, de sangue e de política: o jovem Sandro Leonardo Aguiar Bastos, o Léo Barata, reeleito vereador em 2012, o único reeleito que ampliou — e muito — a votação, em relação ao total obtido em 2008. Léo Barata é publicitário, formado na universidade e nas diversas produções que concebeu ou dirigiu, tanto no marketing religioso, em que se especializou, quanto no ativismo cultural, em que mostra ser incansável. Daí o ter sido escolhido pelo igualmente jovem prefeito e xará Léo Coutinho para secretário da Secretaria de Cultura, Patrimônio Histórico e Turismo de Caxias.

O nome “Barata” do à época polêmico João Afonso foi uma herança do pai, Zeca Barata, empresário. Mais que um legado do pai, o nome “combinou” certinho com João Afonso: sabe-se do quanto uma barata pode incomodar e sabe-se de sua capacidade de resistência, considerado até como o único animal a ter condições de sobreviver a uma guerra atômica.

Fui praticamente vizinho de “Seu” João Afonso Barata, ela na rua São Benedito, eu na Afonso Pena. Morávamos em ruas paralelas, mas na mesma “altura”, o quintal de uma casa quase confrontando com a testada da outra.

Um certo dia, já passando do meio dia, fico sabendo de tiros disparados ali por perto da praça Gonçalves Dias. Chego à esquina do quarteirão e vejo o movimento no pequeno estúdio da Rádio Mearim: aglomeração de pessoas, corre-corre, zunzunzum, nervosismo: “– Atiraram no Barata!”, dizia-se.

O que ocorrera: o grande industrial caxiense Constantino Ferreira de Castro, incomodado com as críticas que saíra no comentário radiofônico no horário do João Afonso Barata, foi até a rádio em seu carrão, acompanhado da mulher e, mais que mulher, guerreira brava e braba, Dona Dulcimar, sempre ao lado do marido na alegria e eventualmente na raiva, exemplo de dedicação às coisas e causas do esposo. Pois bem, o casal chegou à Rádio e não contou conversa. Alguns conhecedores do episódio asseguraram-me que era Constantino atirando, descarregando um revólver e Dona Dulcimar repassando-lhe outro devidamente municiado…

Deus produziu dois grandes milagres nesse episódio: à exceção de Constantino, que sofreu pequeno corte em um dedo mindinho que lhe prejudicou o nervo e anulou movimentos, sem maiores consequências, ninguém ficou ferido. Só vidros e vidraças da rádio foram estilhaçados. E o outro milagre: adversários políticos à época, João Afonso Barata e Constantino Ferreira de Castro reataram a velha amizade pessoal perdida ou esquecida temporariamente em um desses desvãos da política, esta arte de fazer ex-amigos.

E os milagres divinos, como sempre, se justificavam — e décadas depois fico sabendo: não fora o João Afonso Barata que apresentara o programa com críticas políticas que enfureceram Constantino Castro. Naquele meio-dia e início de tarde, Barata estava desde cedo de “plantão” em sua churrascaria, à espera de um ex-governador do Rio Grande do Norte, a quem um amigo comum recomendara que Afonso Barata o recebesse — pedido que o ex-vereador e ex-deputado não podia deixar de atender. Como se demorasse o ex-governador potiguar, uma outra pessoa, chamada “Índio”, ocupou o horário do comentário de João Afonso Barata. Ainda bem que não foi tiro e queda…

Tempos depois da turbulenta ocorrência, lá estavam João Afonso Barata, Constantino e a eterna amada Dulcimar Castro provando do gostoso moque servido no, digamos, restaurante “A Velha Debaixo da Cama”, lá no bairro Tresidela. Tresidela onde a história de Caxias começou e onde um período de desavença política teve fim.
Só Deus e a vida poderiam permitir recomeços assim.

Na foto, João Afonso Barata Lopes Bastos, que faleceu hoje, 19/06/2019, e a viúva, Dª Rosilda. (Texto republicado, revisto e ampliado).

Por: EDMILSON SANCHES
esanches@jupiter.com.br

Categoria: Notícias